Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

O sorriso

Sem saber se era o sorriso, a conversa que fluía entre eles como se fossem amigos antigos, ou apenas a gigantesca empatia que os uniu desde a primeira palavra, Amélia deixou-se levar, encantar, envolver.
A ansiedade terminara com o início de uma madrugada que ela sabia, revolucionária. Alguns metros de rua antiga separavam Amélia e Pedro, o coração abafava os passos que o traziam mais perto, a respiração retida soltou.se depois do primeiro olhar, e finalmenre abriu-se o sorriso rendido ao dele.
Depois veio a Lisboa das cantigas, as histórias, as famílias, o riso sincero. Cada palavra rimava com o sol de Verão, cheirava a bossa nova, e dava uma vontade imensa de dançar, dançar, DANÇAR!
Foi assim que algumas horas breves, se transformaram em dias, meses e anos, numa confusão de intimidade e descoberta, num momento em que Amélia se perdeu numa esquina entre o desejo e a saudade.
A noite estava a ser deliciosa, para dizer o mínimo, e a madrugada de Sábado ia tomando conta das horas. Como na cadência de um tango, foram ficando mais próximos, mais parceiros, e numa tentativa de fim:
- Foi muito bom - disse-lhe ele.
- Foi mesmo, temos que repetir.
Depois...

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

A cidade

Gosto do teu brilho intenso que chega sem avisar quando amanheces.

Gosto de cada volta, de cada curva de ti.

Bebo cada recanto como quem teme morrer de uma sede de encanto.

Lembro-te em cada palavra, em cada frase e na rima simples do Tejo.

Minh'alma pousada na asa de uma gaivota para te ver de outras paragens, de outros ângulos, mas com os mesmos olhos rendidos.

Fecho-os e mesmo que não estejas cá, sinto-te na pele arrepiada de emoção.

Envolves-me e colhes-me nos teus braços de mãe carinhosa, fazes do meu poema a mesma prosa,  e eu rendo-me à altivez das tuas colinas.

Mesmo quando não estou aqui, é aqui que me encontro, Lisboa!

 


Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O primeiro dia...

Não podia ficar parada, tinha que saber o que era aquilo que lhe ocupava o lado esquerdo do peito, e que era quase opressivo. Tinha que estar certa, tinha que se testar.
Muito mais facilmente do que esperava, conseguira o contacto dele, e por incrível que parecesse em 2 minutos tinham marcado um café para essa madrugada.
Tentou levar um dia normal, resistindo à ansiedade que teimava em instalar-se, lembrava-se de ter estado assim havia já muito tempo. Que saudades desta sensação!
Por outro lado, tudo lhe soava estranho.

Afinal, que raio, nem sequer o conheço e estou neste estado. E se for um anormal, um chato, e desinteressante?
... e se for exactamente o contrário?


O dia fora repleto de momentos de total abstracção dos sentidos, em que se projectava num qualquer ligar desconhecido, tendo que lutar com um turbilhão de emoções difíceis de gerir, mas muito fáceis de antecipar.
Quando acordava destas "viagens" dizia a si mesmo que tudo isto era normal, que todas as relações estáveis passavam por momentos de teste, de questionamento, de revolução até. Por um motivo ou por outro, quanto mais o repetia, menos acreditava no que afirmava. Estranho.
Esforçava-se por pensar no Luís, em tudo o que haviam passado juntos, nos projectos que tinham, e dos quais Amélia era a grande impulsionadora.

Onde estava esse entusiasmo, essa dedicação?

Sabia bem que não estava senão na antecipação do encontro dessa noite de Sábado.

A semana II

Raquel e Michele regressavam a Bruxelas no dia seguinte.
- E hoje, que vamos fazer para a despedida? - perguntou Amélia com vontade de dar a resposta ela mesma.
- Jantar seguido de um dos nossos passeios, parece-me o ideal. O que achas Michele? - disse Raquel
- Por mim, alinho - acedeu a amiga.
Apesar de não ser esta a ideia que Amélia tinha em mente quando fez a pergunta, sorriu e aceitou. Tinha uma vontade imensa de voltar àquele bar.
A esta altura já a sua cabeça estava a mil, o seu coração ansioso, e na barriga aquele aperto. Já não havia volta.

A semana

Finalmente chegara a última semana de Agosto, que se avizinhava calma, propícia a uma auto-análise que Amélia sabia urgente.
Se por um lado desejava estar sozinha, por outro daria tudo para ter amigos por perto.
Cuidado com o que deseja, porque provavelmente vais tê-lo!
Um telefonema bastou para que o plano para alguns dias consigo mesma fosse por água abaixo. E ainda bem!
Raquel, amiga do peito, a viver em Bruxelas havia alguns anos vinha a Lisboa, e trazia consigo uma amiga, Michele.
Divertira-se como há já muito não acontecia, conversas de mulheres até à tantas, passeios nocturnos pelas ruas estreitas da sua Lisboa, e muitas gargalhadas.
Matar saudades de Raquel estava a ser muito bom, mas lá no fundo do peito tinha acesso uma luzinha, que lembrava Amélia de tudo aquilo que ela já não fazia havia muito tempo. Sem justificações, sem horas para chegar, sem restrições.

Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Sozinha

Antes de viver com Luís, Amélia tinha vivido sozinha alguns anos, por opção, por prazer, porque sim.
Nunca a assustou o estar sozinha, talvez porque nunca se tenha sentido de facto só. Prezava aquele silêncio bom de final de dia, que só ela poderia quebrar.
Quando começou a relação com Luís, e como é natural, desenvolveu aquela extrema necessidade de partilhar com ele cada segundo do seu dia, na esperança do milagre da multiplicação do tempo, para partilhar mais e mais coisas.
Sempre souberam gerir a partilha do espaço, e por isso a vida em comum era fácil.
As coisas começaram a mudar, e Amélia começou a dar mais valor aos momentos em que estava sozinha, fossem as férias ou o trabalho, sempre que algo motivava que Luís ficasse fora alguns dias, ela guardava no peito, bem escondido, um sentimento que era de alguma satisfação. Sentia-se sozinha outra vez, tinha saudades disso.
As férias estavam a terminar e avizinhavam-se alguns dias só seus. Ansiava-os!

Antes

Amélia e Luís viviam juntos há cerca de cinco anos. Eram companheiros, amigos, parceiros. Mas também eram diferentes.
Ela meiga, emotiva, apaixonada, e capaz de se deixar arrebatar pelas coisas mais simples.
Luís era pragmático, tímido, inseguro, e frio se comparado à paixão constante nos olhos de Amélia.
A relação nascera de um estranho equilíbrio, digno de artistas de circo, e sobre uma corda fina, foi crescendo e evoluindo sem rede, mas cheia de bons momentos.
Por motivos que nenhum dos dois sabia explicar aquela união pouco ortodoxa conseguia manter sem grandes conflitos.
Havia alguns dias que Amélia se sentia diferente, sozinha, vazia. As férias estavam à porta e a vontade de sair da sua cidade era pouca.
Por motivos de trabalho teve que reduzir para uma semana a estadia na praia. Nada fazia prever que a última semana desse Agosto morno fosse a primeira semana do resto da sua vida.